Arquivo de Junho, 2010
hoje vi o filme “autografia” sobre o mário cesariny
dizia ele, entre outras coisas:
“Sou um poeta bastante sofrível numa época em que o tecto está muito baixo.”
“[o amor] É a única coisa que há para acreditar. O único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado.”
amanhã… sou eu.
as palavras.
palavras a desmoronar – a cair no precipício
ao encontro de um leito de algodão…
tudo isto é como perder o juízo envolto por sensações extremas.
como descobrir que o caminho áspero e tortuoso nos conduz ao paraíso?…
atávicas sensações.
devoramos programações antigas
e
os alimentos insinuam-se na alvura das paredes
um quadro colorido
estável
a violência prevalece
no exterior…
é.
a cidade devora tudo
o sangue e os dejectos
escorrem pelas velhas ruas transformadas em pequenos rios de estrume
e
as mansões
elevam-se por entre as velhas casas degradadas
ao longe
bem ao longe
o uivo dos cães
uma bicicleta de papel
de 1979 até hoje, os anos passaram sobre mandrágora – a associação cultural nascida em cascais – 30. quase 31 anos.
para assinalar o aniversário (ainda que tarde), foi mandado lavrar um fascículo – “BICICLETA” – que veio hoje a lume… saiu hoje da gráfica.
36 páginas recheadas de amigos e uma capa onde se pode ver a imagem de uma das suas mais recentes acções performativas acompanhada de uma frase de andré breton: “Não será o medo da loucura que nos forçará a arrear a bandeira da imaginação”.
“bicicleta” em breve circulará de mão em mão a disparar histórias de um percurso de vida associativa – a vida de um projecto cujas raízes mergulham nos velhos cafés da vila de cascais (já inexistentes).
entrementes e em paralelo, um segundo “livrinho” com um texto dramático do pintor (também ele cascaense) victor belém. o texto que deu corpo ao segundo espectáculo de MANDRÀGORA – “frankenstein em lisboa”.
em “bicicleta” (número 10 – III série), os depoimentos de: bruno vilão (presidente da associação), floriano martins e renato suttana (brasil), vitor cardeira, nicolau saião, miguel meira, fernando rebelo, fernando aguiar, joaquim simões, inês ramos, fernando faria, gonçalo mattos e manuel almeida e sousa (portugal), manuel maciá, antónio goméz, yolanda pérez herrera, javier seco e pedro sevylla de juana (espanha).
escreve (em jeito de editorial) bruno vilão: ” Mandrágora tem folhas. Folhas escritas. Tem raízes na cultura portuguesa que não estão assentes na terra. Estão inscritas no ar, a tinta de fogo, sublinhadas a chamas de água… amontoado de cadáveres esquisitos.
Mandrágora caminha descalça por paisagens oníricas e por oásis esquecidos pela voragem do tempo. Mandrágora não perde o Norte, porque nunca o teve, e lança-se à sorte. Mandrágora fecha as pestanas para abrir a mente e grita em espasmos continuamente descontínuos.
Mandrágora tem ondas de furor invisíveis ao tacto, apenas audíveis nos corredores do abstracto. Mandrágora dança numa Lua fechada à chave, onde o curso da chuva é ascendente e onde as ideias são uma ténue neblina que nos conforta os pés.
Mandrágora não se escreve. Inscreve-se algures em nenhures, perdida no tempo, encontrada a espaços. Chamem-lhe utópica. Chamem-lhe culturalmente devassa. Chamem-lhe poeticamente difusa. Mandrágora agradece.”
e antónio gomez (uma referência no campo da poesia visual espanhola) diz: “Hace más de 40 años la curiosidad juvenil hizo que al saber la existencia de la mandrágora y sus propiedades, me preocupara en buscar información sobre esta planta. Poca pude conseguir, en mi ciudad solo contábamos con una biblioteca y salvo la descripción de la planta, sus propiedades y alguna leyenda relacionada con ella no encontré más información.
Pasados muchos años y olvidada esta anécdota la casualidad hace que conozca una mandrágora portuguesa, de Cascais. Una mandrágora tan potente que crea adicción, desde ese momento soy un adicto a Mandrágora y todo lo que este colectivo genera.
Salud y larga vida a Mandrágora.”
estórias doutra história
porque te contei a minha estória…
a história termina aqui.
porque… não pode conter mais partes.
apenas um olhar privilegiado poderá entender e aventurar-se no romper da cortina que dá acesso a outras “partes” – secretas
os seus nomes não prenunciarás
espelhos
colocou-se diante do espelho
e
enquanto cuidava da maquilhagem
reflectiu
……………….. fugiu
nu
……………….. como relógios de olhos verdes
caiu
a gritar
nu
……………….. caiu
como brinquedos assustados nas mãos duma criança
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bicicleta sai esta semana!…
a revista de Mandrágora, sai da gráfica esta semana. este projecto editorial, cuja direcção está a cargo de Bruno Vilão, conta com a participação de artistas nacionais e estrangeiro e, ainda que tardiamente, assinala a passagem dos trinta anos de actividade cultural de MANDRÀGORA – um projecto associativo nascido em Cascais no ano de 1979.
paralelamente será lançada a peça dramática “Frankenstein em Lisboa” do pintor VICTOR BELÉM – “Este texto de Victor Belém foi apresentado por “Mandrágora” em Maio de 1982 (estreia na Sociedade Portuguesa de Autores – Lisboa). “Frankenstein em Lisboa” é, portanto, a segunda produção teatral desta associação … Contou com a encenação de M. Almeida e Sousa e com a participação de: Graça Serra, Nuno Artur Silva, Fernando Vendrel, Miguel Nunes e Ricardo Coutinho.”
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o nosso boneco…
o teu corpo aramado
é dono de um mundo próprio
está prenhe de memórias divididas
maquilhadas
ao acaso
esse esqueleto de arame
onde late um coração de madeira
projecta um estado de alma indivisível
e
incompartido
é o resultado de uma acção
bem estruturada
e
construída pelo olhar
cumpre um papel na cena
é um actor
não esconde
o seu excelente desempenho – nas tábuas do palco

tão pouco quando suspenso no estendal da roupa


























