Arquivo de arteseries

recordando arteséries II (Faro)

A acção de
Mandrágora

homenagem a Mário Cesariny de Vasconcelos em Faro

projecto/acção construído para “ArteserieS” (Faro – 2009) por Mandrágora – actuantes: gonçalo mattos e manuel almeida e sousa

autografia

sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

o meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
( antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa )
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente – tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris – já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião – não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais – também, já por cá
passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnifica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha-férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascensão para ti O Magnifico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais
nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu
partido de manhã encontrado perdido entrelagos de incêndio e o teu retrato grande!

Mário Cesariny de Vasconcelos

mário cesariny de vasconcelos descansa o cigarro no ombro de manuel almeida e sousa quando da estreia de "memórias de um guerreiro" - espectáculo de "mandrágora" na galeria moçambique kultural de inácio matsinhe

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny


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arteséries – faro (recordando)

Mandrágora
em
ArteserieS

(performance de bruno vilão, m. almeida e sousa e gonçalo mattos)

Faro 9 de maio de 2009

sobre o evento ArteSerieS tenho a dizer que cumpriu, em faro, a proposta que – em nome de mandrágora – fiz a josé bivar;
um projecto que escorre alegremente à margem do instituído.
a proposta era arte
e
a arte foi cumprida sem medalhas nem comendas.
a arte foi, como deve ser, um grito independente.
e
as acções
sucederam-se
envolveram-se
aventuraram-se
por territórios de espanto e muito improviso

estar em faro na qualidade de fazedor de coisas – para uns
ou de alucinado – para outros
deu gozo
muito
sobretudo porque partilhei o espaço de acção (palco) com pessoas de quem gosto e muito considero
todos eles

ArteSerieS – assim baptizada pelo bivar – cumpriu

e
o próximo combóio é para apanhar no cais do sodré.

au revoir algarve!…
que vou até tavira.

manuel de almeida e sousa

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