Arquivo de colaborações

BEM-AVENTURANÇA

hugo ball e emmy hennings

“Como conquistar a eterna bem-aventurança? Dizendo Dadá. Como ser célebre? Dizendo Dadá.”
(Hugo Ball)

Digo (ou grito) Dadá e deito-me na cama
disposto a conquistar a bem-aventurança
com um pé descalçado e uma mão sobre a pança
com um olho fechado e o outro que se derrama.

Pronuncio Dadá como quem já se inflama
como quem sobre um crespo oceano se balança
como quem não perdeu o estilo ou a confiança
e salta para a rua e não sucumbe ao drama.

Cheio de uma emoção que muito certamente
não vem de ser verão ou de eu estar somente
deitado a me lembrar do vento que cessou

pronuncio Dadá com cuidado e minúcia
sempre atencioso às sutilezas da pronúncia
(pois me falta a ventura e célebre não sou).

(Renato Suttana)

ao teatro

“Homenagem-abraço ao Teatro, ao meu persistente confrade e amigo actor Manuel de Almeida e Souza e aos que com ele, através da vida, dos palcos, das cenas e dos obstáculos têm batido as pancadas de Molière pelos anos fora…
Com o firme abraqson do ns”

 

desenho de nicolau saião

qualquer um

marioneta de manuel almeida e sousa que deu rosto à capa de "qualquer um"

“qualquer um” é o livro saído e recebido (via correio) de renato suttana. “qualquer um” é uma edição de “virtual Books” com capa (sob ideia do autor) de manuel almeida e sousa – uma marioneta fotografada no estendal de roupa…
em “qualquer um” podemos ler:

Preciso de um pensamento
que não se evole no vento,
que seja cal e cimento.

De um que não tenha a asa nua,
não tenha vindo da lua,
não seja achado na rua.

Que pouse sobre um rochedo,
vá além da mágoa e do medo,
não seja oferta e segredo.

Preciso de um pensamento
que dure mais que um momento.

capa do livro de renato suttana

renato suttana (1966) é professor universitário e autor dos livros “visita do fantasma na noite” (2002), “o livro da noite” (2005), “bichos” (2005), “uma poética do deslimite: poema e imagem na obra de manoel de barros (2009) e “fim do verão de 2009″, além de outros publicados em formato electrónico no circuito da internet.
sutana tem colaborado, também, com os projectos “bicicleta” (mandrágora – cascais) e desta página net -  “domador de sonhos”

um artigo de fernando aguiar

Publicado ontem (28 de Agosto) no jornal “Estado de Minas”, em Belo Horizonte, sobre um cd de poesia do poeta Wilmar Silva.

a edição nº 2 de domador de sonhos!…

a edição nº 2 de domador de sonhos acaba de estar à vossa disposição em formato pdf

contém:

Poéticas – fernando aguiar
Poemas com fósforos – Manuel Almeida e Sousa
3 fotos-acção – António Gomez
Arteséries – um projecto no Algarve (josé Bivar)
perco-me em mim – Gonçalo Mattos
A maçã de Éris (teatro) – M. Almeida e Sousa
design – Luísa Coder & Jojé Russell
2 poemas – Manuel d’Luísa
1 Poema – Victor Cardeira
3 poemas – Nicolau Saião
Mandrágora em Edita 2010
auto-poesis – Jorge Vicente

para baixar – carregue na imagem

porão do paquete pátria

instalação de VICTOR BELÉM

um incêndio… onde será?

um incêndio… onde será? tenho de ir. sou bombeiro. sou…

1 boca d'incêndio

gonçalo mattos:
o incêndio é na minha cabeça.
mas como sou um excelente bombeiro… isto está quase em ordem.

joaquim simões:
não posso ir agora. tenho fogos para apagar!

alba damião:
vem comigo
espreitar
1 ……………. fogo lá ao fundo
1 ……………. fogo lá mesmo ao fundo
1 ……………. fogo lá mesmo bem ao fundo

e nada para além do ruído do fogo
nada
nada mais
nada mais
a caminhar sem rumo

nicolau saião:
Um incêndio? E onde? E valerá a pena
apagar? Será de apagar? Lembremos
que desde há vários anos, quer queiramos quer não
somos todos obrigados
a ser bombeiros voluntários…

Assim sendo – não vou! Pois o incêndio pode ser
que estaja a decorrer
no palácio do Rei (o premier)
ou nos jardins do palácio do Imperador (o premier)
acendido pelos seus áulicos depois
de uma noite de bebedeira (prato principal: robalos)
em que congeminaram mais videirices
para alento da quadrilha
para desalento da maralha.
E agora querem que o poviléu apague as chamas
que atearam, os malandrins?!
Nanja eu!

Deixai que a pureza do fogo
lhes creste as caudas.

Só vale a pena apagar incêndios
no tipee dos homens livres.

Deixa queimar os alcouces dessa malandragem!

renato suttana:
um incêndio só se apaga com gritos
com intenções segundas
com fotografias da Índia
com poemas sobre rios
com arcos de pua

onde houver um incêndio
(onde será? tenho de ir
sou bombeiro. sou…)
lá estarei eu
unido ao segredo do fogo

e que tal contemplar o voo das máquinas?

gonçalo mattos:
acho muito bem

bruno vilão:
porque as máquinas estão perdidas no tempo e esquecidas no espaço

renato suttana:

A princípio pensei em vender-te um abismo,
ou um maço, talvez, de cem talheres gordos,
ou quem sabe a invenção de um novo esteticismo
que aprenderias imitando a voz dos tordos;

mas, depois de exaustiva e vã meditação
(que afinal me deixou mais brancos os cabelos),
cheguei solenemente à inútil conclusão
de que o alvitre melhor seria não vendê-los.

Cheguei à conclusão de que o melhor é mesmo
deitar-me no gramado e, esquadrinhando a esmo
uma nesga do céu azul de meu subúrbio,

o voo contemplar das máquinas, fremente
(tão sempre mais veloz à luz de algum distúrbio),
que às vezes passam lá aceleradamente.

manuel d’aluiza
As máquinas não voam, nós voamos
Com elas e por elas no horizonte,
Lá de dentro do qual nos avistamos
Na estrada que julgamos ver defronte.

Não são armas, são filhos como cães,
Companheiras paridas do existir
Do que ainda não somos, anciães
Vagindo de outras vidas, do porvir.

Todo o mundo e ninguém são. Contudo,
Ao erguerem a voz no universo,
Falam de nós, da Criação, de tudo

O que, sendo já no que é, por ora mudo,
Espreita e se espelha em cada verso
Buscando o que, sendo um, só é disperso.

joaquim simões:
Contemplar o voo das máquinas é repousante. Dá-nos a ilusão de comandarmos, de facto, alguma coisa, o mesmo é dizer, de que o Universo é o nosso lugar de brincadeira.
E talvez seja, de facto, verdade.

alba damião:
há 1 máquina filosófica que impede a mente de vagar, embora mantenha sua iniciativa e liberdade… é matemática aplicada ao absoluto e aliança entre o positivo e o ideal.
1 lotaria de pensamentos tão exactos quanto números…

m. almeida e sousa:
após o ruído ensurdecedor de uma máquina, desenvolvo movimentos no solo e grito: – os que procuram doces
encontram doces
porque… tudo é carnaval

nicolau saião:
Máquinas dos mundos exteriores, máquinas de gente de fora
a quem os antigos chamaram deuses (pois não possuíam uma
linguagem tecnológica) e os que depois foram a padralhada, a canalha
tonsurada com oportunismo aproveitaram para as suas negociatas.
E as pequenas máquinas (pássaros, pirilampos, crocodilos das anedotas russas, pintarroxos e pentelhudas, balões cativos e balões libertários), tudo isso
que nos anima

e enche de maravilha como se fôssem um ratinho, um noitiobó com pequenos élictros transparentes e coruscantes.

as montanhas a escalar profetizam o destino?

nicolau saião:
Depende. Se forem de dentro sim e não. Se forem
de fora não e sim. Mas as profecias vêem doutro lugar em nós
e para além de nós
São as alfombras onde residímos, os territórios
que olhámos e ocupámos. As montanhas
não são para olhar esperando que nos respondam. São para
percorrer com inocência
com aprazimento
e com amor e respeito.
E em silêncio fecundo.

alba damião:
para que entendas ……………… melhor
falta faz não ……………………….. fazer
e ………………………………………….. pronto
depois te conto
1 …………………………………………… bela visão
1 …………………………………………… cheiro
1 …………………………………………… tacto
1 …………………………………………… gosto
1 …………………………………………… gozo
e se acordar numa manhã …… cinza
e se acordar numa manhã …… fria
trepo as montanhas e tudo saberei
de tudo e de todos

gonçalo mattos:
não!
não é o facto de escalar as montanhas que vai profetizar o destino mas sim se conseguirmos conquistá-las e domina-las.

justino linguiça:
nós cá em Beja acabámos
com as montanhas de vez.
profetizem o destino
mas é do cabrão que as fez…!

m. almeida e sousa:
pois sim
as montanhas que deslizam por baixo dos nossos olhos espelham mil profecias
e
os crocodilos dir-me-ão que não tenho dinheiro para as próximas encarnações

renato suttana:
as montanhas a escalar
se vistas do modo certo
prometem mais que o deserto
mais que a intimidade do ar:
do indeciso peregrino
que vai buscar lá na altura
um erro um grito uma altura
um norte um projeto um bem
são capazes de também
profetizar o destino.

as metáforas desgrenhadas…

as metáforas desgrenhadas sentem vontade de narrar aventuras?…

nicolau saião: “Nunca!
As metáforas desgranhadas são colegas dos poetas desgrenhados ou penteadinhos
promotores do “vómito urbano”
e de outras vergonhas e infâmias
que fingem poetar para melhor te morderem o cachaço
São compadres do bentinho
e do béria
comadres do tónho botas
irmãs do careca premiado. Foge delas, inda é tempo
como dizia o Garrett!”

renato suttana: Quando as abate o tédio, certamente.
Ou quando, por motivos ignorados
(talvez pelo prazer dos mil pecados),
tocadas de um fervor novo e demente,

fingem dar de comer aos passarinhos,
distraindo-os com velhas pabulagens
(elas que andam já fartas de viagens)
que aprenderam à margem dos caminhos.

Disto não tenho dúvida: que sentem
lá no seu coração de desgrenhadas
uma vontade aguda, que não mentem,

de narrar aos ouvidos inexpertos
dos que estão a dormir meio despertos
uma boa pazada de aventuras.

fernando rebelo:
Ó blogue da minha aldeia (GLOBAL)
dolente na net calma,
cada chat teu é um forward que ressoa na minh’alma.

joaquim simões: às metáforas, não lhes é possível conhecerem uma sua e única verdadeira face, porque nos espelhos se sobrepõem todas as de que foram dotadas. donde se segue que não consigam pentear-se e se apresentarem sempre algo desgrenhadas. esta sua circunstância leva-as, com frequência, a aventuras descabeladas em busca do rosto único

m. almeida e sousa: olha para mim!
para os meus ossos.
sabes, meu rapaz?… por trás da janela eu, muitas vezes, obrigava-me a usar um colar de pérolas.
disse-me ela.
e eu – num mundo onde já não há pedras sobre as quais possas saltar?…
retorquiu ela – o mundo aposta nos nossos corpos.
e
na carne de vaca…
o corpo ensanguentado que descansa naquele caixão vermelho
era eu.
essa coisa das ratas, de que tanto medo tiveste, foi das melhores histórias que alguma vez os moribundos me contaram.

só depois vim a saber que ela era uma elegante metáfora louca por aventuras (daí se tenha suicidado 5 vezes)

os lagartos ladram à lua cheia porquê?

adão contreras: – porque acham que são o reflexo da lua

renato suttana: – ladram para tornar
a noite menos oblíqua
ladram para forçar
qualquer coisa de suave
a acontecer
ladram para inquirir
alguma dimensão
mais íntima do ser.

nicolau saião: Porque de noite todos os lagartos são pérfidos
todas as luas cheias estão vazias
todas as terças-feiras mordem
nos poetas que ladram.

joão daniel: -Voa um bando de pardais na Grande Luz,
Jesus palita os dentes com chiclete,
No Restelo, um pedinte, de Grã-Cruz,
Lá pedala numa velha biciclete.

Uiva um lagarto à lua, em Alvalade,
Por um tranquilo Papa abençoante,
Estridula na cidade a inverdade
De um apito venal e infamante.

Aprestam-se hoje as almas p’rà contenda:
Vem do Norte a trova e traz a lenda
Do pinto que em dragão foi transformado.

Chega, ardente, a Hora. Cuidadosa,
De flor de laranjeira e em cor-de-rosa,
Vem-se a Nação em cima do relvado.

fernando rebelo: Já escrevi mas não consigo saber se lá fica. Será que tenho um probelema na cútes ou algum lagarto se terá paçeado pelo meu cletóres. Çinsseramente. Uma rapariga que se atreve ao anonimato e que vos faz chegar isto pela mão amiga do (Ahhh!  Ohh! Uhh!)

bruno vilão: para a maré subir até às estrelas

gonçalo mattos: pela mesma razão que eu canto com as estrelas

m. almeida e sousa: para abraçar uma velha lenda que se cruza nos caminhos a disparar imprecações.

onde está o pé do rodapé

bruno vilão – está serrado ao meio

nicolau saião – está na bota que bate no rabo que chuta o traseiro do sempre em pé

joaquim simões – o pé do rodapé juntou-se à cabeça para que haja algo com pés e cabeça. nessa altura já terá pés para andar e para rodar num pé de dança. nada disto tem a ver com a água-pé nem com o ponto pé-de-flor. diria qualquer músico que, se quem responder a isto o fosse, só se poderia classificar como um pé

gonçalo mattos: está aqui, no meu bolso.

m. almeida e sousa – está aqui em baixo

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