30 anos de Mandrágora


segundo a direcção de “Mandrágora”: “nestes 30 anos de Mandrágora… Seria nosso objectivo editar um número de “Bicicleta” em suporte de papel.
Esse número contemplaria espaços abertos a artistas nacionais e estrangeiros que connosco têm colaborado.
A nossa proposta implicaria ainda a edição de uma obra dramática de Victor Belém – uma homenagem a este artista plástico nascido em Cascais nos finais dos anos 30 e que tem colaborado com o nosso projecto associativo desde a primeira hora.
O nosso pedido de apoio e colaboração à Câmara Municipal de Cascais não foi satisfeito. Melhor, não obtivemos qualquer resposta da autarquia.
Tal situação impossibilitou a concretização deste projecto editorial.
Mandrágora completa 30 anos de actividade cultural neste mês de Novembro. Completa mais um ciclo…
Jamais, as falhas das instituições impedirão que este colectivo prossiga o seu caminho.
O desenvolvimento do seu projecto estético.”


entrevistas com Manuel Almeida e Sousa e Bruno Vilão (número especial de “Bicicleta” PDF) baixar aqui

O que disse Manuel Almeida e Sousa sobre este projecto com 30 anos de existência:

Trinta anos de Mandrágora, o que é Mandrágora?

– Mais do que um projecto estético, trata-se de um colectivo informal que jamais teve como proposta a produção de eventos dramáticos ou plásticos de carácter comercial. Trata-se, mais concretamente, de um espaço de experimentação/acção em processo e progresso permanentes.

No entanto, foram apresentados a público vários projectos…

– O que é, obviamente, não apenas natural como inevitável! Depois de construirmos uma acção em “laboratório”, fica a questão: – Mostra-se ou não?…
Mas, de facto, o objecto é sempre o resultado de uma experiência, de experiências do colectivo, da sua criatividade.

Há uma fórmula definida nesse processo criativo?

– Não. Muitas vezes limitamo-nos a saltar de e no vazio… Como dizia, num poema, o Cesariny – “acamaradamos” e, num estalar de dedos vem uma ideia – se viável é, prosseguimos.
O Mário (Cesariny), aliás, esteve sempre pronto a colaborar e a apoiar-nos e fê-lo por diversas vezes, tal como o Cruzeiro Seixas e outros maiores do nosso surrealismo, a quem muito agradecemos o apreço em que tiveram este “movimento”.
Mas, retomando: é desta forma que encetamos uma fase em que tudo é brando, estranho, difuso. Então, quando tomamos consciência das “imagens” criadas, apropriando-nos do seu sentido, o que parecia o caos converte-se em acto.
As nossas acções, podemos dizê-lo, rompem de um estado frequentemente ambíguo. E isso permite, a quem está de fora e nos vê, todo o tipo de interpretações.
Apostamos em desafios, no desafio da metáfora do mundo da arte contemporânea.

Contra-cultura, como se falava nos anos 60?

– A contra-cultura foi deglutida e aproveitada e “dejectada” pelos media e pelo sistema vigente em geral. O “espectáculo do quotidiano” desempenha um papel muito próximo da antropofagia… Devora tudo.
Devora-nos.

Daí as dificuldades de um projecto experimental com estas características em ser apoiado pelas instituições?!…

– Mandrágora foi já apoiada por instituições de grande prestígio na área da cultura. Deste e do outro lado da fronteira. Além disso temos consciência de que constituímos uma referência para muitos projectos culturais, nacionais e estrangeiros – até já “servimos” para teses universitárias de mestrado.
Se não somos apoiados com regularidade deve-se, quanto a nós, a dois factores, a saber: em primeiro lugar, por nunca termos querido sujeitar-nos à perda de uma real independência; em segundo lugar, porque o diálogo institucional está longe de fluir. Deparamos com muitas barreiras, muitas reuniões, muita burocracia. Para além de não termos vocação para pedintes…

Este nosso país depois de Abril, lamentamo-lo, nunca teve uma política séria para a área da cultura, nem sequer uma definição do que ela possa ser. Nenhum associativismo cultural pode vingar neste deserto… falta-lhe o húmus para se alimentar, para poder ganhar raízes. E é precisamente aqui que reside a razão mais funda do fracasso de algumas democracias, o insuficiente desenvolvimento de um tecido associativo ou cooperativo, devido à permanente precariedade em que se estabelecem e funcionam.
Não se entende, pois, porque “eles” não entendem…

Uma Mandrágora com 30 anos…

– É, assim, uma Mandrágora nas mesmas condições em que nasceu, mau grado tudo o que foi feito. Sem espaço de trabalho, muitas vezes com reuniões improvisadas à mesa de um restaurante (já não há cafés onde se consiga fazê-lo), com “assembleias gerais” onde calha, com um arquivo histórico de incalculável valor disperso pelas casas dos associados…

Mas há promessas…?

– De resolução? Nem por isso… Houve. Houve muitas… Muitas promessas. A situação mais caricata foi protagonizada pela Câmara Municipal de Cascais, vai para alguns anos. Num dia, deram-nos uma chave de uma loja, no dia seguinte pediram a chave de volta. Tinha havido um engano…

Engano…?!

– Isso mesmo. A loja, propriedade do município, havia já sido prometida, disseram-nos, a uma associação de pais e encarregados de educação de uma escola. Claro que uma associação de pais tem mais volume de votos que uma associação cultural, ou eventualmente um senhor ou senhora da confiança partidária de quem gere os destinos autárquicos. Vamos lá saber…

Tudo o que foi referido ao longo desta entrevista daria um excelente filme. Já pensaram em fazê-lo?


– Duvido de que nos dessem um subsídio. Ainda nos arriscávamos a ganhar algum prémio de comédia negra em Cannes e lá ficavam “eles” sem saber se haveriam de nos aproveitar para o país “deles” ou esconder-nos rápida e discretamente.
E longe de nós atrapalhar a vidinha seja de quem for…

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One thought on “30 anos de Mandrágora

  1. Absolutamente incompreensível como um projecto destes se mantém à margem das preocupações de uma autarquia como a de Cascais. Em qualquer país da Europa, uma Mandrágora estaria hoje em condições completamente diferentes. Seria acarinhada e apoiada… Como é possível, sr. António Capucho? como é possivel ignorar um projecto desta dimensão em Cascais?… Haverá assim tantos grupos artísticos nesse concelho com a qualidade de Mandrágora?… É lamentável e absurdo!…

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