acerca dos 30 anos de MANDRÁGORA


da entrevista de Manuel Almeida e Sousa ao jornal “Postal do Algarve” – na passagem dos 30 anos de Mandrágora – projecto cultural nascido em Cascais em 1979 (partes)

Nota importante: tendo em conta  que o texto do jornal tem falhas, optámos pela publicação integral da entrevista – no final das imagens da publicação.

a entrevista – Tooooda

Entrevista de José Bivar a Manuel Almeida e Sousa

Poeta experimental, situacionista, actor e Performer, Manuel Almeida e Sousa é um dos últimos e dignos representantes de uma geração de artistas de referência ainda mal avaliada e pouco compreendida, sem a qual todo o panorama cultural emergente se torna fútil e incompreensível. Nesta conversa procuramos esse elo entre gerações, onde a Mandrágora se apresenta como uma proposta com 30 anos de actividade ininterrupta na área da cultura.

1- Quando nasceu a Mandrágora e porquê?

– O porquê em primeiro lugar… “A razão é outra e é louca” diria o poeta António Maria Lisboa. E a razão, pode dizer-se, é o símbolo e o signo.
(refiro-me à razão do nome) porque a Mandrágora – a planta Mandrágora Officinarum, que outros conhecem pelos nomes vulgares de Berenjenilha ou Uva de Mouro (Atropa Mandrágora), cresce na península ibérica, em bosques sombrios, junto às correntes de água e em sítios misteriosos onde nunca penetra o Sol. A sua raiz é grossa, longa e esbranquiçada, por vezes dividida em duas partes. Uma porção de folhas ovais e onduladas rodeia a raiz e estende-se em círculo pelo solo. O seu fruto, semelhante a uma pequena maçã, produz um odor desagradável assim como toda a planta. Os camponeses conhecem, ainda que por tradição, o terror que só o nome desta planta despertava nos seus antepassados. Para eles era um vegetal que tinha algo de Humano e as obras de magia indicavam-na como algo excepcional a que é forçoso dispensar culto. Teofrasto disse dela: árvore com cara de homem. A Mandrágora entrava na composição dos “Filtros”, dos “Malefícios” e em diferentes receitas de feiticeiros. Quando a arrancavam da terra, diziam que o homenzinho encerrado nela lançava gritos horríveis e gemidos agudos. Era preciso colhê-la, debaixo de uma forca, após ritos estranhos. Os concílios da ICAR, ocuparam-se sempre deste assunto… e o nome da planta figura na maior parte dos processos da Inquisição… A razão, outra, prende-se com uma palavra que nos é cara: criatividade.
Voltando a António Maria Lisboa – “a criatividade e a espontaneidade irrompem espontaneamente ou não irrompem”… E nós estávamos nesse processo.
Havia que romper com o peso de uma cultura que se estava a impor, a que espelhava um novo autoritarismo crescente… os criadores / operadores estéticos (que se juntavam à mesa de café) queriam mais… A “treta” da “arte ao serviço do povo”, era algo que não fazia sentido – éramos a geração de Maio de 68, do “é proibido proibir”, do “exigimos o impossível”… O somatório de tudo isto levou-nos à construção de um caminho e esse caminho à porta do notário onde subscrevemos uma escritura. Tudo teve lugar no ano de 1979 (fim de década – não por acaso, nada é por acaso. Ou talvez sim…), e também mês de Novembro (o das bruxas, dizem), o da revolta. Não Outubro (o da revolução…).
De saída (do cartório) a planta foi cuidadosamente colocada no vaso e… floresceu. Daí se infere que Mandrágora está impregnada de rituais, de ligações… e logo, de um espírito colectivo libertador – criamos em liberdade – sempre e por princípio… cultivamos a velha tradição das vanguardas do século que ora terminou mas, sempre, libertos de cânones.

2- No pós 25 de Abril uma aposta desse tipo era rara, entroncava com a linha anarca-surrealista do jornal “e etc”, ? Tiveste ligado a esse grupo?

– Fujo (fugimos) sempre a rótulos. Somos, sobretudo, um colectivo de operadores estéticos. Não mais. Quero dizer com isto que “ao meter as mãos na massa”, nos despimos do quotidiano e “iniciamos o rito de criação”…
O surrealismo é hoje (para nós) mais uma referência como o é o dadaísmo ou o experimentalismo dos anos 60. O anarquismo, por outro lado, é um lago onde naveguei ou me banhei… hoje (e, aqui neste parágrafo, estou a falar em termos pessoais) estou muito mais próximo de um niilismo que de uma cultura libertária/anarquista. Vejo-me, portanto, mais próximo dos dadaístas que dos surrealistas. Estou mais com Artaud, Apollinaire, Pierre-Albert Birot, Tzara, Picabia do que com um Breton (ainda que o considere. Muito)… mas isso sou eu. Não confundir o EU com um colectivo como Mandrágora onde há pessoas. E, onde há pessoas há experiências de vida… a Mandrágora é pessoas, não a pessoa que sou eu. A aposta em Mandrágora, enquanto projecto, obedeceu (acho) aos tempos certos. Estamos em 79, estamos (nessa altura) ainda a “domar sonhos”. Estamos a viver no ventre da grande mãe “utopia”. Essa deusa criativa que nos cedeu o seu caldeirão para que, nele, preparássemos o nosso primeiro feitiço:  O espectáculo “AUGA” donde transbordava a poética do surrealista Pedro Oom. “Auga” teve um apoio fabuloso por parte do pintor Cruzeiro Seixas que nos facilitou a estreia na Galeria da Junta de Turismo da Costa do Sol (Estoril). O jornal/revista “& etc” surge nos finais da ditadura e, se não estou em erro, no pós 25 de Abril só saem três números… a “& etc” revista dá lugar à “& etc” editora. Conheci pessoas que colaboraram na revista, de entre elas o Ludgero (Lud). Não me lembro se o Nicolau Saião chegou a colaborar, penso que não – que colaborou no primeiro “& etc” – ainda suplemento do “Jornal do Fundão”.
Mas não tenho ideia de que fosse um grupo formal, penso que a “& etc” era mais um projecto pessoal… Mas fui seu leitor, sim. Tenho quase todos os números – creio que me faltam dois. Lembro-me que não os comprei porque tinham subido de preço… uma exorbitância, “quinze paus”! Não esquecer que na altura uma bica custava vinte e cinco tostões… e eu andava sempre teso. Ainda ando…

3- A tua profissão de professor ajudou a manter o projecto, nomeadamente, na repescagem de colaboradores e propostas poéticas?

– A minha profissão… Essa questão é interessante. Mais interessante se respondida não por mim, mas pelo actual presidente da direcção da Mandrágora. Vou fugir, portanto, a uma resposta directa e dar espaço às palavras do Bruno Vilão: “Com 16 anos, entrei na Mandrágora sem conhecer os seus pressupostos, as suas bases artísticas, o seu particular modo de pesquisa de arte. O meu quadro de referências literário era essencialmente pautado pelo movimento do Romantismo. E hoje, após uma intensa e profunda incursão pelo Surrealismo, pela constante pesquisa poética proporcionada pela Mandrágora, posso afirmar que me transformei num romanticida em série. Foi como espreitar o mundo através de uma nova janela ou através dos óculos cinéticos do Julio Le Parc, e não há ponto de retorno.”
“ Era um adolescente carregado de classicismo literário quando cheguei à Mandrágora. O primeiro encontro com o Surrealismo previa-se, portanto, exigente. E esse confronto aconteceu quando o Almeida e Sousa inundou os meus olhos com a poesia do António Maria Lisboa. Não sei se estava preparado para ler um poeta que tinha um desejo irreflectido de possuir alguém num trampolim. A verdade é que aquela escrita possuiu-me efectivamente e a minha sede de surrealismo nunca mais parou de se elevar num trampolim. Ainda hoje saltita dentro de mim. Esta densidade poética sugou-me e não mais de lá saí. Foi como “uma bala direita no cérebro sem apoio em nenhum ponto do espaço”, legendaria o Maria Lisboa.”

“Estava a começar uma nova etapa na Mandrágora quando integrei o grupo, mas o que ainda não sabia é que também eu estava prestes a iniciar uma nova etapa na minha vida, pois as transformações internas enquanto entendimento de arte, de sociedade, de cultura, de conceitos e de premissas base sucederam-se a um ritmo trepidante. Eu era apenas um miúdo que queria ser actor e hoje sou tudo menos actor. Sou mais poeta, mais performer do que actor. Inclusivamente, tive a oportunidade de poder desenvolver a minha área académica de comunicação através da Revista Bicicleta, esse veículo velocipédico cultural q.b. da Mandrágora.”
“Partindo do pressuposto de que a arte está dentro de nós, dentro de cada um, a pesquisa de arte que se faz na Mandrágora acaba por ser uma pesquisa interior, de auto-conhecimento, que depois se expressa em forma de arte. No processo de ensaios para um espectáculo não existe nenhum “outrar”. Não há personagens pré-definidas para interpretar. Acho que são mais as personagens que nos interpretam. Há fragmentos de nós que se descobrem e se desvendam em cada personagem. Não lhes damos corpo. As personagens encontradas é que nos dão forma, que nos revelam. Penso que o tom que atravessa 30 anos de Mandrágora é influenciado por um singular processo de criação. É um espaço de pesquisa onde realmente se exalta a ideia do Breton, quando formula que “não será o medo da loucura que nos forçará a arrear a bandeira da imaginação”.
“A Mandrágora consegue proporcionar imagens-miragens onde a água assume um novo estado – não é nevoeiro nem bolhas de sabão. “Mandrágora” não se enceta, não se consome, não se utiliza, e portanto não se reutiliza, nem tão pouco se recicla. É um mirabilis liber que nem todos conseguem folhear.”

4- Nasceram alguns projectos ou grupos saídos da Mandrágora?

– Ao longo destes 30 anos houve apenas uma situação de quebra – saída em grupo… Porém esse grupo desenvolveu apenas dois ou três projectos e dissolveu-se. Fora essa situação, as saídas foram quase sempre motivadas por questões que se prendem com a vida particular de cada um… não com o objectivo de abraçar um outro projecto. Mas estamos conscientes que a nossa acção influenciou outros grupos tal como nós fomos “vítimas” de outras “viroses”… O que é natural, 30 anos é uma vida… não?

5- Qual o balanço que fazes destes 30 anos?

– Resumiria da seguinte forma mais ou menos poética: – 30 anos (em 20 de novembro de 2009)/uma vida associativa intensa/uma procura de experiências estéticas constante/mais que o desejo do produto final/o aperfeiçoamento/e o que nos interessou sempre/a experimentação/a construção e destruição em regime de“atelier”/e o ritmo que se perde na densidade do significado dos signos/este percurso por entre actos criativos com paragens em estilos vários/artes plásticas/mail art/performance/teatro/multi media/edições/atravessou os nossos objectivos poéticos/porque criativos/porque irrompem espontaneamente no imaginário dos actuantes do colectivo/esteve sempre presente a ideia de um espaço que pode muito bem ser um fosso iniciático/uma caverna/uma torre/e a iniciação tem – sempre – lugar aí/nesse local imaginado/cada dia um ritual/e todos os dias o rito deslocar-se-á a um outro ponto de acção/a experiência – as experiências são objecto de reflexão para outras demandas/e as ferramentas em utilização não são (de todo) sofisticadas/antes aquelas que estão ao alcance das nossas mãos/ apenas só nos falta um espaço/o concreto desde sempre/e já se passaram 30 anos desde o dia em que mandrágora lançou as suas sementes.

6- Enquanto autor de textos dramáticos o teu trabalho ultrapassou o âmbito da mandrágora?

– Não. Nem estou interessado. Eu estou e estarei sempre à margem do “mercado”. É uma questão que tem a ver comigo… ideológica, se o entenderes.
Eu trabalho para o projecto e com o projecto (com ou sem dinheiro). Sou um fazedor de coisas, não um vendedor de coisas. Escrevo cartas/mensagens aos que conheço, aos que me estão próximos. Logo escrevo a pensar nas pessoas que estão comigo – para elas. Só para elas. Não escrevo (como não escreveria cartas) a pessoas que não conheço de lado nenhum…
Se estivesse interessado em espaços ou auditórios amplos não me seria difícil – descendo de uma família de editores livreiros… tive sempre à minha disposição os meios e sempre os recusei. Melhor, não os aproveitei por opção.

7- Como te vês no panorama artístico – poeta visual e não só, dramaturgo, artista plástico, actor? Performer, em suma?

O Bruno Vilão disse sobre a sua estada na mandrágora o seguinte: “… Eu era apenas um miúdo que queria ser actor e hoje sou tudo menos actor …” Eu diria algo parecido. Não sei bem o quê, mas diria. Como afirmei na tua questão anterior, escrevo apenas mensagens – envio-as, troco-as… vivo o acto criativo em confraternização, em ritual – é isso que me interessa. Tudo o resto me passa ao lado.
E a performance é a razão… A dimensão mágica e poética da performance manifesta-se através de desdobramentos e (re) interacções… E, por outro lado, a repetição e o seu aspecto intimista favorecem aquela espécie de imersão no nirvana. Um nirvana muito especial, uma vez que na performance o propósito não é o isolamento, tão pouco uma interacção cósmica, com seus efeitos paralisantes ou estilizantes. Em jogo estão sempre 3 vectores na minha acção; por exemplo o triângulo: Ritual – Desconstrução – Construção ou também um derivado, este na forma do quadrado: Memórias – Construção – Repetição – Desconstrução. Isto poderá parecer confuso ao leitor comum… Mas não é – de todo. Conheço as linguagens em jogo… Não domino – apenas – a música como gostaria. E isso coloca-me em sintonia com aquilo que me interessa – experimentar/desconstruir e… construir.
É evidente que as acções que experimento poderão ter outras leituras: há as telas, as instalações, os poemas visuais, o teatro, os textos mais ou menos dramáticos, o livro de artista, a arte postal, o circo & etc. … mas todos – se verificares – fazem parte de um mesmo olhar de uma mesma pesquisa e experimentação. O panorama artístico pouco me interessa – estou mais interessado (e cada vez mais) em experimentar, gozar o prazer de fazer coisas, mesmo que o resultado final seja uma enorme lixeira.

8- A arte deve ser total? Qual a relação que estabeleces entre a Vida e Arte?

– A arte é algo vago. Sobre isso muito foi dito ao longo dos séculos… passo a citar aquilo que mais de acordo está com a minha prática:…  Raoul Vaneigen no seu livro “A Arte de Viver Para a Geração Nova” disse: “Desde há século e meio, a parte mais lúcida da arte e da vida é fruto de investigações livres no campo dos valores abolidos.  A razão passional de Sade, o sarcasmo de Kierkegard, a ironia vacilante de Nietzsche, a violência de Maldoror, a frieza mallarmeana, o “Umor” de Jarry, o negativismo de Dada, essas são as forças que se manifestaram sem limites para introduzir na consciência dos homens um pouco de bolor dos valores em putrefacção. E com ele, a esperança de uma reviravolta de perspectiva.” A propósito do movimento DáDá, Francis Picabia disse: – “Vocês não percebem aquilo que fazemos. Pois olhem caros amigos que nós ainda menos” E, finalmente, Pierre-Albert Birot disse na primeira década do século XX: “… No tempo em que a ciência põe o mundo inteiro na mão de cada homem, os espíritos não podem fazer menos do que alargar a sua amplitude e a sua ambição; hoje, mais do que nunca, o homem e, sobretudo, o artista deve dizer: nihil humanum… O mundo inteiro é o seu atelier, o mundo inteiro é o seu gabinete de trabalho, o mundo inteiro é o seu modelo e ele só pode ter aspirações ao que se poderia chamar o mundialismo ou o universalismo….”

9- Que pensas dos percursos artísticos actuais e do nascimento de uma série de vedetas emergentes, sentes-te de alguma forma ultrapassado, um veterano de outras guerras ? Acreditas na fusão completa da arte com a vida na linha do FLUXOS, dos accionistas de Viena, Otto Muehl (residente incógnito em Moncarapacho), Brus, Joseph Boyeus…, anti-capitalistas, anarco-situacionistas.

– A palavra “vedeta” não me incomoda. Acho que todos temos direito ao nosso momento de glória! É salutar ser-se reconhecido. Dá-nos mais força, mais razão para prosseguir na nossa “luta”, no nosso percurso… Ser-se vedeta não implica ser-se cabotino. Os cabotinos, sim, incomodam. Incomodam-me porque me irritam. Fico sempre muito feliz, dá-me imenso prazer e gozo quando um amigo ou um aluno meu alcança o êxito. Esse espírito nacional (super instituído) chamado inveja não é, de todo, navio onde embarque ou possa vir a embarcar. O êxito é fundamental no processo. E é fundamental esse espírito desinteressado e “aristocrático” que implica o estarmos nestas coisas da “Kultura”.
Se sou veterano e de outras guerras… talvez sim. Mas isso jamais implicará que seja o que hoje é entendido por “politicamente correcto” e tão cultivado por essa nova esquerda emergente. Estou literalmente nas tintas para esse
estar. Outros valores mais altos se erguem no meu horizonte. Sobre a segunda parte da tua questão… Fluxos, Boyeus e Situacionistas interessaram-me. Sim. Segui atentamente os percursos de acção e de pensamento. São outras referências e não mais que referências. Que fariam esses históricos hoje? Que diriam? Se o mesmo… então já não interessa. Já não me interessa.

10- As artes de palco e performativas parecem estar na moda, no entanto, a esses projectos, parece faltar uma certa maturidade, força e a autenticidade dessa Velha Guarda; roçam o entretenimento e/ou a vontade de agradar a um público tecnicista, pseudo-vanguardista. Como te situas perante essas propostas? Cesariny, Ernesto de Sousa, Luís Pacheco, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Fernando Aguiar, Alberto Pimenta, Alfred Jarry, Antonin Artaud, Perret, Kerouac, Bourrougs, Bukowski, Arlo Ibars são nomes que parecem não dizer nada às novas gerações, fanatizados na Pop cultura dita urbana, de uma Pina Baush, Laurie Anderson, etc. A Beat Generation desaparecida há mais de 50 anos sem deixar rastro visível neste Portugal, sem massa crítica que o defenda de consumismos, das neo-liberais indústrias da cultura e seus cabotinos comissários, surfistas de banheira, chazinhos de Letras e tertúlias de “bom porte e postura” para a terceira idade com cuidados paliativos para evitar os choques emocionais. Tudo muito provinciano como é costume. Sentes-te pós moderno ou um resistente?

– Muitos nomes… essa questão pressupõe a resposta implícita… ainda assim: Cesariny, um amigo e uma referência. Ernesto de Sousa, uma personagem muito interessante. Luís Pacheco, um conhecido a quem comprei livros e com quem bebi uns copos. Mário Henrique Leiria, uma figura que conheci no fim do seu percurso e que tive pena de não poder tido a oportunidade de aprofundar o diálogo. António Maria Lisboa, o poeta “inteiro” que jamais poderia ter tido a oportunidade de conhecer. Fernando Aguiar, um amigo e companheiro com um percurso diferente que gosto muito. Alberto Pimenta, uma referência, outra… colaborou nas nossas “bicicletas” e foi bom. Alfred Jarry, o poeta que abriu muitas portas e isso foi óptimo. Antonin Artaud, quem sou eu? De onde venho?… sou Antonin Artaud!… A referência máxima. Benjamim Perret, o poeta dos tomates enlatados e muito mais – pela sua coerência, pela sua força. Os americanos… e a pop, e os hippies, e… a poética de rua. Falta aí o Jarry Rubin que disse: “O cenário és tu/o actor és tu/tudo é real/o público não existe” Quanto aos chás… prefiro o tinto.

11 – Qual é a tua relação com o Algarve, além das tua raiz familiar?

– Foi no Algarve que perdi a virgindade! À sombra de uma alfarrobeira… Tenho uma casa na Luz de Tavira onde enterro dinheiro… gosto mesmo de Tavira e de Silves. E só não gosto muito do mar porque é pouco revolto. Gosto mais da minha praia. A do Guincho.

12 – Qual o balanço que fazes das possibilidades de intervenção que tens tido e/ou não na região? Art Series incluído.

– hum…. Sobre o assunto escrevi o seguinte: sobre o evento ArteSeries tenho a dizer que cumpriu, em faro, a proposta que – em nome da mandrágora – fiz a José Bivar; um projecto que escorre alegremente à margem do instituído. A proposta era arte e a arte foi cumprida sem medalhas nem comendas. A arte foi, como deve ser, um grito independente. E as acções sucederam-se. Envolveram-se. Aventuraram-se por territórios de espanto e muito improviso. Estar em faro na qualidade de fazedor de coisas para uns, ou de alucinado para outros. Deu gozo. Muito. Sobretudo porque partilhei o espaço de acção (palco) com pessoas de quem gosto e muito considero, todos eles ArteSerieS – assim baptizada pelo Bivar – Cumpriu. E o próximo comboio é para apanhar no cais do Sodré. Au revoir algarve!…que vou até Tavira.

13 – Qual a diferença com o ambiente de Huelva onde foste o ano passado premiado, Os blogs vieram ao encontro da tua forma de entender a arte (multi-media)

– Vou, tenho ido aos encontros “Edita”, de Huelva, desde a sua segunda edição. Só entendi o prémio como um “recuerdo”. Não mais que isso. O símbolo do galardoado, não faz o meu género… O que senti este ano é que o “Edita” acabou. Aquela Palavra Ibérica é outro comboio… não sei.
Sobre os blogues… nada têm a ver com experiências multi-media. O blogue é comunicação. Só isso.

14 – Ainda acreditas numa ARTE que derrube a humilhação com que todos os dias saímos à rua?

– A poética está na RUA! A verdade está na RUA! E os poetas derrubam os muros…

2 thoughts on “acerca dos 30 anos de MANDRÁGORA

  1. Quanto fôlego precisaria de ter, não para ler, porque penso saber ler, mas sim para acompanhar e assimilar tudo o que MAS diz e cita nesta entrevista. pareceu-me ser uma descrição de vida e projecto mas… que sei eu do Mané? É muito ano (30 anos de mandrágora) e é também muita vida, logo, estou a anos luz de tudo perceber. Mas tentei. E em muito do que li, revi-me, não no aspecto da arte “a arte foi, como deve ser um grito independente” porque não tenho nada de artista, mas no espírito da coisa, da “intervenção-acção”. Sei lá. Não vou dizer mais nada porque tenho de reler a entrevista.

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