as metáforas desgrenhadas…


as metáforas desgrenhadas sentem vontade de narrar aventuras?…

nicolau saião: “Nunca!
As metáforas desgranhadas são colegas dos poetas desgrenhados ou penteadinhos
promotores do “vómito urbano”
e de outras vergonhas e infâmias
que fingem poetar para melhor te morderem o cachaço
São compadres do bentinho
e do béria
comadres do tónho botas
irmãs do careca premiado. Foge delas, inda é tempo
como dizia o Garrett!”

renato suttana: Quando as abate o tédio, certamente.
Ou quando, por motivos ignorados
(talvez pelo prazer dos mil pecados),
tocadas de um fervor novo e demente,

fingem dar de comer aos passarinhos,
distraindo-os com velhas pabulagens
(elas que andam já fartas de viagens)
que aprenderam à margem dos caminhos.

Disto não tenho dúvida: que sentem
lá no seu coração de desgrenhadas
uma vontade aguda, que não mentem,

de narrar aos ouvidos inexpertos
dos que estão a dormir meio despertos
uma boa pazada de aventuras.

fernando rebelo:
Ó blogue da minha aldeia (GLOBAL)
dolente na net calma,
cada chat teu é um forward que ressoa na minh’alma.

joaquim simões: às metáforas, não lhes é possível conhecerem uma sua e única verdadeira face, porque nos espelhos se sobrepõem todas as de que foram dotadas. donde se segue que não consigam pentear-se e se apresentarem sempre algo desgrenhadas. esta sua circunstância leva-as, com frequência, a aventuras descabeladas em busca do rosto único

m. almeida e sousa: olha para mim!
para os meus ossos.
sabes, meu rapaz?… por trás da janela eu, muitas vezes, obrigava-me a usar um colar de pérolas.
disse-me ela.
e eu – num mundo onde já não há pedras sobre as quais possas saltar?…
retorquiu ela – o mundo aposta nos nossos corpos.
e
na carne de vaca…
o corpo ensanguentado que descansa naquele caixão vermelho
era eu.
essa coisa das ratas, de que tanto medo tiveste, foi das melhores histórias que alguma vez os moribundos me contaram.

só depois vim a saber que ela era uma elegante metáfora louca por aventuras (daí se tenha suicidado 5 vezes)