um incêndio… onde será?


um incêndio… onde será? tenho de ir. sou bombeiro. sou…

1 boca d'incêndio

gonçalo mattos:
o incêndio é na minha cabeça.
mas como sou um excelente bombeiro… isto está quase em ordem.

joaquim simões:
não posso ir agora. tenho fogos para apagar!

alba damião:
vem comigo
espreitar
1 ……………. fogo lá ao fundo
1 ……………. fogo lá mesmo ao fundo
1 ……………. fogo lá mesmo bem ao fundo

e nada para além do ruído do fogo
nada
nada mais
nada mais
a caminhar sem rumo

nicolau saião:
Um incêndio? E onde? E valerá a pena
apagar? Será de apagar? Lembremos
que desde há vários anos, quer queiramos quer não
somos todos obrigados
a ser bombeiros voluntários…

Assim sendo – não vou! Pois o incêndio pode ser
que estaja a decorrer
no palácio do Rei (o premier)
ou nos jardins do palácio do Imperador (o premier)
acendido pelos seus áulicos depois
de uma noite de bebedeira (prato principal: robalos)
em que congeminaram mais videirices
para alento da quadrilha
para desalento da maralha.
E agora querem que o poviléu apague as chamas
que atearam, os malandrins?!
Nanja eu!

Deixai que a pureza do fogo
lhes creste as caudas.

Só vale a pena apagar incêndios
no tipee dos homens livres.

Deixa queimar os alcouces dessa malandragem!

renato suttana:
um incêndio só se apaga com gritos
com intenções segundas
com fotografias da Índia
com poemas sobre rios
com arcos de pua

onde houver um incêndio
(onde será? tenho de ir
sou bombeiro. sou…)
lá estarei eu
unido ao segredo do fogo