poetas…


… Se nas escolas as tristes e conformistas aulas de língua pátria não ensinassem às crianças o culto do poeta, e se este culto não sobrevivesse por causa da inércia dos adultos, ninguém, tirante uns quantos amadores, se haveria de interessar por eles. Os poetas não querem ver que a pretensa admiração pelos seus versos não passa do resultado de factores tais como a tradição, a imitação, a religião ou o desporto (pois se assiste a um recital de poesia como se assiste à missa, sem nada se entender, para marcar presença, e porque a corrida em prol da glória dos poetas nos interessa tanto como nos interessam as corridas de cavalos). Mas não senhores, o processo complicado da reacção das multidões reduz-se para eles a isto: o verso encanta porque é belo.

… Porque razão, numa palavra, nada haverá pior, em questão de estilo, nem nada de mais ridículo, do que a maneira como os Poetas falam de si mesmo e da sua poesia?…

Wittold Gombrowicz (in “contra os poetas” – edição antígona – autores Benjamin Péret e  Wittold Gombrowicz – Lisboa 1989)