frente & costas (uma observação)


no blogue a ruga e a mão um apontamento de francisco soares, que reza assim:

frente & costas - o novo projecto de m. almeida e sousa

frente & costas, de bicicleta

Veio a público, a partir da Mandrágora portuguesa, pedalando numa bicicleta que descende por via uterina do próprio Marcel Duchamps, a primeira ação do projeto editorial frente & costas. Como entre pessoas íntegras frente e costas não se desmentem, ambas as metades dessa assimetria são assinadas por M. Almeida e Sousa, performer, ator, poeta português desde cedo envolvido nas vanguardas artísticas ibéricas.
Como em todas as peças assim concebidas, o final das duas partes fica, paradoxalmente, no meio da brochura. Mas o que mesmo interessa está lá dentro, de qualquer maneira. Na frente um teatro absurdo, com uma linguagem completamente nova e intraduzível – embora de sonoridade agradável. As indicações cénicas são dadas em português e culminam com a última, onde uma linguagem profundamente lírica, surreal e paradoxal fecha a peça com chave (portuguesa) de ouro.
Na segunda metade, a presença da linguagem se junta à sua indiferenciação, por ilegibilidade ou por intraduzibilidade, e se projeta pelo recorte de figuras preenchidas com letras, ou manchas gráficas preenchidas com letras. As letras, apesar de juntas, não formam palavras, pelo menos traduzíveis para alguma linguagem conhecida e a colocação de maiúsculas ou acentos é totalmente aleatória – nisso, mas apenas nisso, lembrando o nosso Frederico Ningi.
A comunicação de alguma mensagem, no sentido comum da palavra, só se faz a partir das manchas gráficas, mas arrasta-nos para conceitos muito gerais (casa, vagina, soneto, quartetos, ovo, simetria de corpo humano).
Vivemos exatamente num mundo no qual a banalização da linguagem, dos discursos ‘verdadeiros’, do inquestionável, a sua constante renegociação prática, tornam as palavras moeda que, de tanto circular, perdeu completamente o valor. O que significa, em termos de linguagem, que tudo vira ruído sonoro e gráfico, semântico por igual, o próprio texto não passa de um pretexto e de um pretexto para aquilo que nos apetecer no momento – ou seja: para tudo e para nada. Tudo se torna uma sucessão aleatória já não de textos mas da pretensão a texto.
Esta uma outra mensagem que pode passar, a partir de uma apreciação de conjunto. Resta-nos, seguramente, um sentido estético apurado na segurança, originalidade e efeito ou sugestão percetiva alcançados, que firmam Manuel Almeida e Sousa como um dos nomes importantes (que importa algo) e exportadores (que exporta algo) da república portuguesa…
Fica bem, mano.