em tavira… foi assim


manuel almeida e sousa em "armapalavra" - TAVIRA - um projecto de "artalaia"

texto da conferência (a partir de fragmentos da peça dramática de m. almeida e sousa – “rosbife.ponto.come-se”):

Penso adaptar-me a esta nova situação com alguma facilidade.
Disseste tu.

 –  Foi no momento em que o comboio cruzou o espaço numa rapidez algo desesperante.
    estavas obcecado
        pela poesia das máquinas.

 – Eu não disse nada.
        Melhor: Disse pouco.
disse: – como foi possível!?…
e continuei: – segundo o novo paradigma, a consciência foi primeiro e a evolução depois
    estamos perante uma situação que
                sem dúvida
    dará lugar a uma espécie de revolução
    uma revolução de insuspeitas consequências
        não só no mundo da ciência
        mas também em todos os aspectos da vida.

– Estamos a bordo da Nova Era
                                    a Era
        do mundo aberto ao meio…
        um mundo aberto a um Eu e
        capaz de desempenhar o seu papel a nível superior.
Cada meta que a humanidade alcança é um novo começar     
e
    a totalidade da história, não é mais que…

    uma máquina para gerar e gerir sonhos lúcidos.

 – Uma máquina…
        revela toda a complexidade, toda a riqueza.
            Tantos conflitos…
                    secretos?

 – Aos quinze anos éramos parcos em palavras…
        durante largos períodos parecíamos mudos.
        e
    a tua poesia deslizava por caminhos de dupla identidade.
    Uma identidade cruzada
        indiciadora de um quase ajuste de contas.

 –  Escrevia-a, nessa altura, nas carruagens de 3ª classe. Resultava uma escrita trémula, reveladora de um carinho profundo, umbilical…
disseste.
e
continuaste:
 – Uma escrita forte. Tão forte como incomunicável, tão centripta como absorvente.

 –  Nunca pensei nisso. assim…

 – Mas era.

 –  talvez…

 – Uma escrita herdeira de mundos limitados…
                    enclausurados
                    domésticos
                    obscuros
    o retrato da penumbra
  de arquitecturas populares
    a ruína
    o mal passar nas fábricas
    a sordidez que chega no limite da fuga…

 –  Os bancos da 3ª classe eram de pau. duros.

 – Os poemas apresentavam-se de forma magnífica.

 –  Disse-os uma vez no café da estação.

 – Estou lembrado.

 –  Disse: – O pensamento é contagioso, vicioso, viral.

 – Ah!…
        A magnífica forma de como a voz se transformava…

 –  Outras não.

 –  Outras vezes pode existir uma causa objectiva que afecte uma situação, mas a verdade voluptuosa acentua os danos a partir do pensamento…

 – Os arquétipos que se manipulam ultimamente em literatura interessam-me pouco.

 – O pânico, sim.

 –  O pânico…?

 – Claro, o pânico.
        Ah!…
            e o caos.

– Sim, o pânico e o…

 –  O pânico…

 – O pânico produz-se tal como uma concupiscência gostosa na nossa própria carne.
O pânico reproduz-se no tumulto como uma substância primitiva.
É uma energia telúrica que nos envia às origens remotas da vida.

– O pânico é um aditivo extraordinariamente eficaz, determina condutas implacáveis e momentos únicos…
        deslumbrantes
        uma enorme copulação terrorista!…

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