UMA PICARDIA A MESTRE ALMADA (do luiz pacheco)


 

“homenagem ao pacheco” grafismo de A. Sousa

Havia, no Café Gelo, houve até ao dia 1 de Maio de 1962, aquando da grande manifestação popular contra o fascismo, que se repetiu a 8, com mortos e feridos, que logo a 2 o Cerqueira gerente nos proibia a entrada por ordem da Esquadra do Nacional onde fora chamado, devido aos incidentes no Gelo, que foram desde o cómico – o pai da actriz Fernanda Alves a puxar de um canivete que nem para limpar unhas servia e a dizer que com ele se defenderia da Polícia, a um criado careca e que todos diziam bufo a levar trolha valente dos xuis, a um qualquer a limparem-lhe sangue e açúcar da cabeça, que as armas da malta eram os antigos açucareiros do Gelo, pesados pois eram umas esferas de metal que magoavam mesmo – à desgraça de uma moça, ferida brutalmente na perna, ao susto que apanhei dançando diante de uma fera fardada e apontando-lhe para os meus óculos e safei-me – havia, como ia dizendo ao princípio, no Café Gelo um grupo, o Grupo do Gelo, que durou anos e se seguia ou continuava um outro, com ele identificado, do Café Royal, ali ao Largo Duque da Terceira. Quase tudo surrealistas ou dizendo-se, fazendo por isso, em verso e prosa e comportamento e este teria, por vezes, tanto de insólito e descabelado que vejo hoje com frequência utilizar o termo surrealista, até em comentários forçosamente graves de matéria política, significando o extravagante de qualquer acto ou facto, ou atitude; assim, surrealista substituiu os seus “sinónimos” anteriores de futurista, coisas à Picasso, etc..
Quem fazia parte desse Grupo? Mário Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Manuel de Lima, Fernando Saldanha da Gama, Henrique Tavares, António José Forte, Manuel de Castro, Herberto Helder, o Luís Pestana, da Marinha, bom tradutor e bom bebedor, o José Carlos Gonzalez, o João Fernandes, de sua graça o Zanaga, então revolucionário ardente, o Manuel Crespo, o José Manuel Simões, e mais e mais. Grupo heterogéneo. Afinidades electivas, de geração, de interesses comuns, estético-políticos, quantum satis. Um cheirinho a homossexualismo, um grãozinho de génio nalguns, inconformidade geral. Anarquia nos espíritos e nos propósitos de quase todos. E uma certa camaradagem, também. Que excluía o sectarismo político, pois ali eram aceites, às vezes gozados, o Raul Leal, o Goulart Nogueira, dois nomes que me esqueceu atrás.

A minha antiga, ora escassa, actividade de Editor, que respeito sem vaidade nenhuma, antes um poucochinho de orgulho e, quer queiram ou não, acho superior ao que fiz como Escriba, se bem que a linha de intervenção seja idêntica, Morte ao Fascismo!, actualmente ao neofascismo que nos começa a pesar, incomodar; como editor, repito, travei contacto, convivi de perto ou longe com muita gente boa, da mesmo piramidal – em inteligência, talento, rábulas, até velhacadas, que a classe literária é um clã onde há de tudo, como nas outras, mas nela refinado. Uma delas foi Mestre Almada Negreiros, e escrevo estas linhas ainda sob a impressão dolorosa do vazio que em mim deixou a morte inesperada – era tão nova ainda! – da Ana Paula Negreiros, vai fazer dois meses ou já fez, que o tempo foge.

 Mestre Almada – pintura de Victor Belém

Mestre Almada Negreiros, que me foi apresentado pelo Lima, era uma fascinante criatura. Aqueles olhos!, o palrar com uma pronúncia indefinida, improvisador dos mais brilhantes que conheci, a boininha, o todo de quem de si dizia: “Eu cá sou de Paris!”. E era. E no regresso duma estadia lá fora, conversando numa esplanada a ver a gente que passa, e comentando-se na roda a mesquinhez, estupidez, calandrice do meio português, cafres da Europa que somos e continuamos que nem o 25 de Abril parece ter libertado de um provincianismo ingénito, incurável, Mestre Almada, de súbito comentou, em tom desolado: – De facto, aqui há umas caras que não se vêem em mais parte nenhuma…
Mas não era dele, fica para o texto As Minhas Cinco Chagas de Mestre Almada Negreiros, que lhes tencionava falar. Antes de uma picardia que lhe fiz. Voltemos ao Gelo. Não era bem conhecido e nem o nome sei ou fixei. Era um daqueles adesivos que apareciam no grupo e sumiam-se sem deixar rasto. Filho bastardo, ou qualquer coisa relacionada, com o prof. Reynaldo dos Santos. Uma tarde aparece e convida a malta para irmos a casa do prof., que estava ausente num congresso qualquer na estranja. Havia bons vinhos, prometia. Alçámos logo. Uma equipa terrorista: eu, o Forte, o Virgílio Martinho e o João Rodrigues, também dois que me esqueceram há bocado, ai! a minha cabecinha, e mais e mais. O prof. Reynaldo morava numa vivenda, ainda lá está, suponho, na Avenida António Augusto de Aguiar, vizinha do Colégio Valsassina, esse arejou dali. Entrámos por uma janela da cave, cautelosamente, o nosso guia foi depois abrir luzes, abrimos – quem abriu – as bocas num espanto difícil de conceber, aceitar, em espíritos surrealistas – mas, que querem?
Era uma autêntica casa-museu. Quadros e mais quadros, livros e álbuns num pequeno escritório onde ficámos, enquanto garrafas de vinhos caros nos iam sendo passadas pelo improvisado anfitrião, que, se bem recordo, tomava aquela surtida como expedição punitiva, sabe-se lá por que justificados ou não rancores pelo dono da casa. E ia sendo. Uma devastação. Os rapazes do Gelo, nanja eu, estavam indignados com aquele ambiente renascentista, são fraquezas. Que o tempo veio a declarar como inveja, pois se foram aburguesando quase todos, excepto os que se suicidaram de forma ostensiva (como o João Rodrigues) ou lenta (como o António Maria Lisboa ou o Manuel de Castro). Tantos por cento de inveja; tantos por espanto, tantos pelo efeito das bebidas que se iam multiplicando, em sucessivas visitas à garrafeira. Os vinhos eram preciosos, quadravam com o ambiente, que não era de ostentação, note-se, mas de estudo, de apetrechamento material excelente. Coitado do João, era dos mais enraivados. Como artista, fracassado para o que não fossem os seus desenhos espontâneos – de louco, era meu costume classificá-los. Porque incapaz de corresponder aos ditames de uma encomenda, de repetir um traçado, que, então, saía num desenho aos risquinhos, muito diferente daquele seu habitual, em que a pena não se descolava do papel e por um único traço contínuo, ia ali fazendo surgir uma caricatura, um quadro onde o figurativo se aliava ao imaginário. Creio que faltou na exposição das Belas-Artes, em homenagem ao João Rodrigues, há anos realizada, exemplos desta dupla e tão desigual criação. Dos forçados – encomendados -, seriam os que ele fez quando esteve no “Diário Ilustrado”, as ilustrações para “A Filosofia na Alcova”, do Sade, agravando que estes tinham a ingénua intenção de não serem pornográficos, esconder sexos e poses mais atrevidas. Isto com o receio dele, confirmado pelos factos, e nem essa esperteza lhe valeu, de evitar perseguições policiais que teve e eu também, por causa do meu prefácio. Coisa curiosa e que não me esquecerá: da última vez que estive com o João – e não sei se já o escrevi noutro lugar – subindo a Avenida Almirante Reis, lhe disse a propósito dos desenhos da edição Afrodite: Aquilo faz lembrar a morgue!.. tão tristes…, não podendo prever que ele, já com o processo quase em audiência e eu encafuado na cadeia de Caldas da Rainha (1968), iria parar precisamente à morgue -, era-Ihe intolerável que um fascista, como ia repetindo, cada vez mais irritado e bebido, vivesse naquela riqueza de grão-senhor. E falava em rasgar, deitar fogo, perante a crescente aflição do rapaz que nos convidara e da minha proverbial sensatez (olha, esta!), que pedi calma e respeitinho. Estávamos ali para beber e ver, não para estragar ou roubar. Afinal, fui eu o único que roubou qualquer coisa, insignificante é certo.
Sobre a larga secretária, descubro envelopes e papel timbrado da Academia Real de Belas-Artes (seria assim, rigorosamente?), de que o prof. Reynaldo dos Santos era presidente. E, numa caixinha, selos de carta. Ali mesmo magiquei, por qualquer impulso de bom-humor ou derivado da irreverência, uma partida. Ao Almada. E escrevo em bem desenhada letra, no pomposo papel timbrado em relevo, mais ou menos assim: por este meio, venho comunicar a V.a Exª, Mestre Fulano de Tal, que esta nobre Academia e tal, etc., tem o prazer de lhe participar que acaba de o eleger seu membro de pleno direito. Não, ninguém!, poderia dizer que Almada Negreiros se tornara um académico, mas perdera também muitas das suas veleidades futuristas e orfaicas. A desenhar os painéis da Gare Marítima de Alcântara, a colaborar com os CTT na feitura de selos comemorativos de borracheiras salazaristas, almoçar afectuosamente com o Thomaz, e o meu amigo, Armando MeIo, tem nos seus “Arquivos Implacáveis” o recorte com a foto dessa exibição despudorada, Almada era bem a imagem, a negativa exemplaridade de um artista servidor do regime. Teria reagido ao 25 de Abril de maneira diferente doutros inconformistas de então (lembro o Cesariny, taralhouco por completo)?, não o podemos adivinhar. Madrugada alta, saímos da vivenda e eu meti o sobrescrito num marco. A ver.
Não soube de nada até relativamente há bem pouco, que isto se passaria aí por 54 e picos. Até que num fim-de-semana, na Lagoa de Albufeira, num grupo de campistas onde estava a Ana Paula, vim a saber da reacção do Mestre, tendo-lhe contado esta história. O meu pai, que guardava todos os papéis, quando viu aquilo ficou furioso e rasgou tudo num instante. Moralidade da história: é que não estaria tão académico e corrompido no íntimo como dava a entender na vida pública. Pois bem: ainda bem!

IN: TEXTOS DE GUERRILHA

de 
Luiz Pacheco
 – Ler Editora, Lisboa, 1979