underground press II


publicações que marcaram uma geração – a dos anos 60/70 – revista OZ

poetas do algarve na luz de tavira


as noites não são todas iguais. esta teve quatro fazes como a lua

tiago nené dialoga com a fé

e

o vitor… ali tão perto

o tiago, o manel, o rui dias simão, o esteves pinto

e

o braço do zé manel (antes do fado)

“o avanço tecnológico numa sociedade sem ética, a não ser do desenvolvimento e exploração a qualquer preço, torna-se numa ameaça ao mundo natural, à sobrevivência das espécies, inclusive a humana”… terá dito o bivar

e

o pessoal ouve enquanto o vitor se prepara para ler a “bicicleta”

o fadista enrola o seu cigarro (que o tempo não está de feição para luxos)

e

a joana olha para o bivar que parece falar – agora – sobre os poetas algarvios

o vitor lê (na “bicicleta”) o seu texto sobre uma performance de mandrágora em terras algarvias

e… cantou-se o fado

a fé olha sorridente o fim do repasto

fim de noite nas dobras dum cinzeiro

os poetas assoam o nariz nos travesseiros

 

ignoram os naufrágios de bicicletas 

calculam certezas no iluminado torreão

 

a poesia alimentou o estômago

como uma navalha 

como um grito escondido na memória

mas…

bem regada com vinhos a propósito 

a despropósito

 

os poetas a sul 

devoraram saladas

pois…

foi mais ou menos isso

mais para o mais 

que para o menos

e

cantou-se o fado

que o pessoal inté é aristocrata…

disse-o o zé

 

isto foi ontem – amanhã há mais

se der…

 

e

preparamos já o percurso rumo a andaluzia

imagens algarvias – é!… de qualidade….


de qualidade

de muita qualidade

disse ela

e

eu ri

só ri

então

iminências encardidas cruzaram o espaço.

pararam…

ouvem-se, agora, cânticos de louvor tardio.

a qualidade é o nosso imaginário

ainda que não haja

quem a certifique ou aprove…

– dos fios de luz pendem ossos e veias!…

para melhor compreender a

qualidade…

dos ouvidos do artista solta-se um fumo branco que causa cegueira súbita aos restantes protagonistas… uma nuvem de fumo de alta qualidade.

– não posso deixar de assobiar e…

aí vou

girar qualquer coisa entre os dedos…

pode ser

pode ser

a qualidade.

não há ninguém por perto. nem longe… apenas qualidade ainda que duvidosa

tem de haver qualidade

disse ela

não ri

apenas olhei

analisei o rótulo

e

com efeito estava fora de prazo

rasgar a carne


rasgar a carne

e

mexer com a colher todas as imagens num instante

a poesia está na rua

os poetas que fritem – no óleo dos carapaus – os seus sonetos bem comportados

adoramos o cheiro a pólvora

há sempre os que têm medo de não voltar

é…

a mente desintegrou-se

transpira-se uma fadiga de mais um ano de trabalho

e

vamos perdendo controlo sobre o pêndulo que transportámos

são os cigarros que marcam o tempo

faltam-nos relógios

depois de teres uma vida cheia de nada, acaba com ela!…