recordando MIGUEL TORGA


torga

 

NÃO PASSARÃO

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.

Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

 

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

 

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

 

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

 

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu

E repetiu:
Não passarão!

 

 

Miguel Torga

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um espaço para o companheiro antónio aragão


António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia (São Vicente, Ilha da Madeira, 22 de Setembro de 1925 † Funchal, 11 de Agosto de 2008) – foi um escritor, poeta, historiador e pintor português.

“ara-vala comum”… foi um projecto sempre adiado. um espaço na rua do meio (à lapa), onde nos empenhámos. ainda fiz lá uma exposição…

hoje, anos depois da sua derradeira viagem, um destaque neste “domador de sonhos”. no outro domador de sonhos, também o aragão colaborou. fomos ao arquivo buscar estes poemas por ele assinados

capas do livro “pátria, couves, deus. etc…

homenageando (nós) o poeta… com bancus

 

 

 

lembras-te…


lembras-te da fotografia da nossa equipa | lembras-te da nossa equipa na fotografia | a nossa equipa | a fotografia | lembras-te | lembras | lambeste a fotografia e colaste no envelope | a fotografia | e colaste | e | meteste no correio | na caixa | na caixa do correio | era a nossa equipa | a melhor equipa que foi nossa | a nossa | e | a nossa equipa era arte | a arte da equipa |

um dia | lembras-te | corremos | estás lembrado | e | a equipa era uma fotografia | apenas | apenas uma fotografia | e | a fotografia era a minha fotografia | e | a fotografia era a tua fotografia | e | a fotografia da nossa equipa era a nossa fotografia | a minha e a tua fotografia |

eu lembro-me muito bem de tudo | eu lembro como se hoje fora | tu não te lembras já | por certo que não te lembras porque não te podes lembrar das coisas fotografadas | tu não podes porque estás morto | e | eu lembro porque ainda estou meio vivo | quando estiver meio morto sou capaz | sou mesmo capaz | de já não me lembrar | mas lembro-me muito bem da fotografia da nossa equipa | lembro | lembro-me | tu é que já | tu é que | tu é que não | tu é que já não |

é bem possível | é possível que | é mesmo possível de que já | é mesmo possível já que ninguém se lembra que tu ainda lembres | é possível que eu me lembre do livro que tinha a fotografia | o livro era | o livro foi | o livro | e porque era | e porque foi | o livro | lembrei-me que o livro era eu | o livro eras tu | o livro eras tu mais eu | lembras-te | lembras-te do livro | do livro que éramos nós | o livro que era um simples livro | um simples livro com a fotografia da nossa equipa | lembras-te | lembras-te da nossa equipa | a nossa equipa lembras-te | era uma linda equipa | e | a nossa equipa | seguiu dentro de um envelope | pelo correio | com selo | e | com tudo |

Poema pouco original do medo – Alexandre O’neill


Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
… de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos